Inicio/Chuva/Depois da Chuva em Santa Teresa
ChuvaRio de JaneiroIntimidade

Depois da Chuva em Santa Teresa

Uma tarde chuvosa no Rio devolve a duas pessoas o tipo de intimidade que nao pede legenda, so presenca, coragem e um pouco de demora.

Por Curadoria ContosQuentes09 de março de 20264 min de leitura581 palavras141 leituras

Experiencia premium

Leitura com ritmo de plataforma

Catalogo, descoberta, leitura imersiva, continuidade e sinais editoriais preparados para transformar cada historia em uma sessao.

Audio em preparacao editorial
0 imagens contextuais planejadas
3 trilhos de descoberta relacionados
ChuvaRio de JaneiroIntimidade

Uma tarde chuvosa no Rio devolve a duas pessoas o tipo de intimidade que nao pede legenda, so presenca, coragem e um pouco de demora.

4 min141 leituras31 curtidas
Audio em fila editorial

Sessao de leitura

Leitura aberta para descoberta. Conta entra para comentar, salvar historico, curtir e publicar.

O bondinho ja nao passava naquela hora, e Marina subiu a ladeira de Santa Teresa com o guarda chuva fechado na mao, deixando que os ultimos pingos da chuva encontrassem seu rosto sem muita resistencia. Havia algo no bairro depois da agua: os muros ganhavam cor mais funda, o cheiro de terra subia junto com o de cafe vindo das casas, e o mundo parecia se mover um pouco mais devagar. Daniel esperava no atelier com a janela aberta, como sempre, deixando entrar cidade demais para um lugar tao pequeno. Ele estava de camisa branca, ja marcada de tinta no punho, e sorriu assim que a viu na porta, molhada nos cabelos e viva nos olhos. Marina conhecia bem aquele sorriso. O problema era justamente esse. Conhecia havia tempo suficiente para saber quanto perigo cabia dentro dele. Tinham o costume de se encontrar sem nomear muito o que eram. Amigos em excesso. Quase amantes em controle. Complices no limite seguro da linguagem. Mas a chuva costuma desfazer acordos silenciosos.

A chuva voltou fina, batendo na janela lateral como dedos impacientes. Marina sentou-se no banco alto perto da bancada, com a caneca aquecendo as maos, enquanto Daniel circulava pelo studio tentando parecer ocupado. Ela conhecia o disfarce. Ele mexia em pinceis quando estava inquieto. Arrumava quadros que nao precisavam ser arrumados. Acendia uma luz desnecessaria apenas para fazer alguma coisa com a tensao. Marina gostava de observar esse tipo de vulnerabilidade elegante. Disse que ele estava pior em esconder o que sentia. Daniel respondeu que talvez tivesse cansado de esconder. A frase ficou pairando no espaco, iluminada pelo amarelo morno das lampadas. Marina desceu do banco devagar e andou ate a grande mesa central, onde havia folhas, carvao, tacas manchadas de tinta e uma fotografia virada para baixo. Ela a ergueu. Era dela. Antiga, mal enquadrada, tirada numa tarde em que os dois haviam fingido que nada de importante estava acontecendo. Daniel se aproximou ate encostar o quadril na mesa, bem perto dela, sem tomar o espaco inteiro. O atelier pareceu diminuir. Marina sentiu o calor dele antes de sentir qualquer toque. E quando finalmente houve contato, foi pequeno: a ponta dos dedos dele rocando os dela ao recuperar a fotografia. Pequeno e definitivo.

Quando a chuva cessou de vez, a janela devolveu ao quarto um Rio lavado, brilhando em pedacos. Marina aproximou-se para olhar a vista, e Daniel ficou atras dela por um instante, respeitando a distancia minima que ja era quase nenhuma. Ela podia ter se afastado. Nao se afastou. Ele podia ter rompido o silencio com qualquer frase facil. Nao rompeu. Foi esse cuidado que a desmontou. O mundo ja tinha dado a Marina muita intensidade vazia, muita promessa apressada, muito desejo sem escuta. Daniel, ao contrario, parecia entender a arte de sustentar um momento ate que ele se tornasse inevitavel. Quando ela se virou, o rosto dele estava perto o suficiente para dispensar traducao. Marina ergueu a mao e tocou a gola da camisa branca, ainda marcada de tinta. Sorriu ao perceber que aquele homem, tao cuidadoso com as telas, parecia menos capaz de organizar o proprio coracao do que qualquer quadro no atelier. Muito tempo depois, quando Marina desceu a ladeira ja de noite, com a cidade outra vez acesa e o cheiro da chuva ainda preso aos cabelos, nao levou consigo nenhuma promessa grandiosa. Levou algo melhor: a certeza de que certas intimidades nao precisam nascer no excesso. Elas ficam irresistiveis justamente porque sabem crescer devagar.

Curtir

Reaja com conta

A reacao fica ligada ao seu historico, favoritos e futuras recomendacoes da plataforma.

Compartilhar

Levar o trilho adiante

O fluxo comercial e editorial vai conectar leitura, descoberta e produtos de forma discreta e contextual.

Comentarios

Conversa destravada por conta

Conta obrigatoria para comentar, construir reputacao e destravar o lado comunidade da plataforma.